Avanço de Flávio Bolsonaro preocupa guardiões da Amazônia
Na Amazônia brasileira, os povos indígenas veem com preocupação a ascensão ao poder do candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL), que promete seguir os passos de seu pai, Jair Bolsonaro, cujo mandato acelerou a destruição da maior floresta tropical do planeta.
O nome Bolsonaro "significa, sobretudo, medo", "significa tudo o que é de ruim para a gente", diz à AFP Inara Waty, líder do povo Sateré-Mawé na cidade amazônica de Manaus.
"Não tenho palavras", acrescenta, com os olhos cheios de lágrimas ao recordar o governo do ex-presidente.
Jair Bolsonaro governou o país com maior biodiversidade do mundo entre 2019 e 2022, um período marcado por recordes de desmatamento na Amazônia e por um retrocesso nos direitos dos povos indígenas.
Seu filho Flávio, favorito no segundo turno de 25 de outubro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirma que seu eventual governo será um "Bolsonaro 2.0".
"A maior forma de abordar o tema do meio ambiente foi o que fizemos durante o governo do presidente Bolsonaro", disse o senador em campanha, ao ser questionado sobre o assunto em uma entrevista.
Para o candidato, seu pai, hoje condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, "lutou" contra uma "agenda ambiental radical".
Flávio Bolsonaro afirmou que os eventos climáticos extremos, que os cientistas atribuem ao aquecimento global causado pela ação humana, são apenas "cíclicos".
- "Questão de vida" -
Assim como Jair Bolsonaro, Flávio conta com o apoio de grandes produtores agrícolas e pecuaristas, que vivem em constante conflito de terras com comunidades indígenas, especialmente na Amazônia.
Aliados dele foram eleitos este mês para governar sete dos nove estados amazônicos.
"Eles querem terra para plantação de soja, eles querem terra para para ter as boiadas deles. E a gente quer terra para sobreviver. A gente quer a terra para plantar, a gente quer a terra para cuidar dela", diz Inara Waty.
Por isso, estas eleições serão uma "questão de vida" para os indígenas, afirma.
Em um vídeo recente, mulheres da etnia yanomami apareceram com pinturas no rosto e no corpo para se opor a Flávio Bolsonaro, a quem acusam de ser próximo de garimpeiros.
"Se a floresta for destruída, como iremos viver?", questionavam aos gritos. "Não queremos que voltem a nos matar!".
Sob o mandato de Jair Bolsonaro, esse povo amazônico sofreu invasões de garimpeiros, que provocaram uma crise humanitária em seu território.
Em seu plano de governo, o filho propõe tratar o meio ambiente como um "ativo estratégico".
Inclui a promessa de acabar com o "desmatamento ilegal" até 2029, relembrando o compromisso de seu pai de acabar com ele, algo que nunca se concretizou, pelo contrário.
Essa meta "é incompatível com as políticas ambientais de Bolsonaro", opina Adriana Ramos, da ONG Instituto Socioambiental.
A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu a perguntas da AFP sobre detalhes de seu plano ambiental nem sobre os receios expressos por comunidades indígenas e ambientalistas.
- "Até pior" -
Tuxaua Ara, um indígena de 45 anos do povo Mura, afirma à AFP, em Manaus, que o governo de Jair Bolsonaro foi marcado por "grilagem e desmatamento".
Os embates entre Bolsonaro e as organizações ambientalistas atingiram o auge em 2019, quando a floresta ardeu durante semanas em incêndios provocados por latifundiários aliados ao presidente.
Aquele governo "era uma preocupação diária, uma loucura diária para todos", afirma Suely Araújo, da rede de ONGs Observatório do Clima.
Durante o mandato de Jair Bolsonaro, a Amazônia perdeu cerca de 11.600 km² de floresta por ano, quase 60% a mais do que nos quatro anos anteriores, segundo dados oficiais.
O governo Lula reduziu esse número pela metade em 2025 e ampliou a demarcação de terras indígenas, mas também enfrenta críticas por promover a exploração de petróleo na costa da Amazônia.
Na campanha eleitoral, as mudanças climáticas ficaram em segundo plano em um dos países que podem sofrer as piores consequências do atual fenômeno El Niño.
Já em setembro e outubro, os incêndios dispararam no estado do Amazonas em relação a 2025.
"No governo Jair Bolsonaro isso estava iniciando, essa carreira de destruição, e agora está bem experiente. (...) Essa questão (com Flávio) pode ser até pior" se ele vencer as eleições, lamenta Suely Araújo.
O senador superou Lula por dois pontos percentuais no primeiro turno, em 4 de outubro.
S. Soerensen--BTZ